Sobre o Calçadão de Ituiutaba, não serei breve.
De tão importante, o lugar se apropriou de sua denominação técnica urbanística. Quando se diz apenas calçadão, não precisa especificar sua localização, todos na cidade de Ituiutaba, já sabem: é o da rua 15.
Não é por acaso. Situado no centro da cidade, o calçadão é um espaço de encontro, socialização, convivência e de atividade comercial. É o coração da cidade. Eu, como tijucano, tenho muitas histórias para contar onde o calçadão é dos principais personagens. Como na infância quando ia ao finado fliperama apenas nas datas de aniversário porque assim ganhávamos 1 hora de jogo de graça. Ou na adolescência tocando violão com a turma madrugada a dentro. Isso tudo na maior segurança. Segurança que atualmente uma associação de moradores e comerciantes do local afirmam não haver.
De acordo com um jornal local, com esta proposta de revitalização (será?) que a associação chamada de Guardiões do Calçadão irá realizar, "o calçadão não vai acabar, vai melhorar". Me chamem de burro, mas o fato de o projeto conter uma rua já não é acabar com o calçadão? A principal característica de um calçadão não é justamente o impedimento do trânsito normal de veículos? Por favor, não confundam calçada com passeio.
O projeto prevê uma abertura de uma via veicular de 4 metros “mas sem a possibilidade de paradas ou estacionamento”. O que os projetistas não preveem (porque não precisa, esta aí e acontece todos os dias para as pessoas verem) é a educação do motorista ituiutabano que, entre outras coisas, bloqueia a avenida 18 para ver e conversar com quem estiver em um famoso bar e uma famosa casa de lanche que existem ali – que eu frenquento inclusive. Um justificativa plausível seria a existência de engarrafamento na 20 ou na 22. Mas deste problema não padecemos.
E não basta liberarem a passagem de carros, temos que inalar CO2. Porque também será construída uma cobertura parcial da calçada para “conforto dos pedestres” e “parte da cobertura ficará aberta para garantir a ventilação e segurança no caso dos edifícios”. Qual caso dos edifícios? Qual o conforto de ficar embaixo de uma cobertura metálica com um sol rachando acima dos 30 graus, cara-pálida? E garantir que ventilação? Cadê o estudo e análise ambiental dessa obra? Aí vento não faz a curva, me mostrem um estudo de ventilação e insolação. E vai me proteger de quê? Chuva de Granizo? Compreender os fenômenos e eventos naturais de uma região é importantíssimo para a análise ambiental e deveria influenciar diretamente o projeto. Área de escoamento, já ouviram falar?
Para as justificativas faltam adjetivos. E só piora ao longo da defesa dessa afronta ao desenho urbano ituiutabano: “irá unir beleza, modernidade e, claro, funcionalidade”; “belíssimo e funcional”. Por favor, observem o projeto e tirem suas próprias conclusões sobre a carga estética desta intervenção, porque gosto não se discute. Mas modernidade e funcionalidade eu preciso pontuar.
O que há de mais moderno neste projeto é o relógio no centro da via (e olhe lá). Posso estar enganado, mas já faz muito tempo que a humanidade constrói cobertura para galpões e estacionamento. Ao que tudo indica moderno mesmo é uma gestão pública que derrube os males da era modernista e matenha os bons. Que apresente idéias sustentáveis e menos agressivas ao meio ambiente e ao ambiente urbano. Que crie ciclovias, que tenha um planejamento paisagístico e que mantenha os espaços de convivência. Que valorize o ser humano.
Funcionalidade é quase autoexplicativo. Falta apresentar o sujeito. A função será em detrimento de quê ou de quem? Funcional para o pedestre não será. Uma das promessas é “a entrada do carro do Corpo de Bombeiros, em caso de incêndio”. É o mínimo que eu espero que aconteça quando aquilo estiver pegando fogo e caindo sobre nossas cabeça. Alguém aí pode me contar algum caso em que o corpo de bombeiros teve dificuldade em entrar no calçadão? Eu mesmo, nunca ouvi falar. Assim como nunca ouvi falar em atropelamento no calçadão e que, portanto, bate de frente com um argumento pobre que tenho escutado alguns arrotarem por aí sobre o trânsito de veículos no calçadão – “Eles quais atropela nóis”(sic).
Só para pontuar, rola o boato que um dos principais motivos para esta mudança no calçadão é apropriação indevida do espaço por alguns vendedores ambulantes. Eu acredito que este boato é mentira. Porque esta intervenção não irá espantá-los. Irá beneficiá-los. Nos casos raros de chuva, estarão protegidos enquanto vendem seus produtos e atrapalham o trânsito de pedestres no novo passeio.
Por fim, vale o respeito à louvável inciativa dos Guardiões do Calçadão. Falta uma proposta que não destrua o calçadão. Me apresentem uma revitalização de fato e terão todo o meu apoio. Enquanto isso, prefiro defender a memória e o patrimônio urbano de Ituiutaba.
*Gustavo Netto Damião é arquiteto pela UFV, mas mais que isso, é cidadão tijucano.
Um comentário:
uuhhuuuu!!!!! deu vontade de aplaudir!!! Parabéns, Gustavo!!
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